AUTOFAGIA

 

    Imagem: Representação gráfica de um processo                                           de divisão celular.
     Fonte: Portal Prepara Enem. 

- Nossa, Sandra, você anda tão fria, tão assim, como se diz, tão sem coração!

- É verdade! Tem razão! - Deu de ombros.

- O que houve?!

- Eu o digeri na última refeição!

Secamente ela analisou o menu. O olhar fixo, igual um cientista observa por um microscópio. 

- Qual vai ser hoje? - Ele indagou.

- Lógico que o mesmo de sempre pra mim. E pra você?

- Você que sabe!

- Nem escolher um cardápio você consegue! Que horror!!!

- Você ainda fala em horror, depois de… ah deixa pra lá…

O garçom se apresentou e fez a mesma pergunta.

Sandra sorriu no canto da boca, tal qual a ironia de um vinho tinto seco, na mesa ao lado, enquanto na mente cantarolava a letra do Gil: 

“Drão, não pense na separação

Não despedace o coração

O verdadeiro amor é vão

Estende-se infinito, imenso monolito…”

- Ah, me ocorreu agora fazer uma mudança, decidiu Sandra. Pode me trazer grãos integrais. É um achado na gastronomia do momento. Ao menos sacia. Sacia sem degenerar as células vivas, nem detonar mais ainda as mortas. Pelo que sei, é isso o que dizem por aí afora. Não acredito, assim como não acredito em mais nada. NADA! Mas pode me trazer isso. 

O companheiro a olhou estranhamente e pensou: “é a vida. É a nossa vida que segue até a próxima parada!”.

Não houve mais outro momento juntos. Viram-se ali pela derradeira vez e pensaram igual: “não, não há mais sabor algum aqui!"

Combinaram por telefone que ele recolheria suas coisas no apartamento na semana seguinte, enquanto ela não estivesse em casa. 

(Em 05/IV/2024)


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