Antes que a morte nos separe
. Fonte da imagem: Portal da Amazon
Continuação da narrativa "Apelo", do Dalton Trevisan. Exercício proposto na aula do curso de Escrita Criativa, do Cearte-PB.
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APELO
(Dalton Trevisan)
APELO
(Dalton Trevisan)
Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite pela primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
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Vamos então à continuação da narrativa elaborada por mim:
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ANTES QUE A MORTE NOS SEPARE
(Viviane Marques)
ANTES QUE A MORTE NOS SEPARE
(Viviane Marques)
Senhor, qualquer mulher, em justa causa, responderia a este apelo com palavras rudes, narrativas raivosas, acaloradas de rancor, molhadas de mágoa nos olhos, e tantas outras maneiras que sei muito bem que há para dar resposta ao desprezo acumulado nos dias e anos de uma convivência sufocante.
Porém tentarei tocar com cuidado a parte que também me dói e que ficou aqui dentro por eras, encaixotada em alguma gaveta sobre o tapete das minhas emoções, tal qual os jornais que você percebeu por fim que ficaram empilhados sob a escada.
Desde já deixo óbvia a minha decisão de não retornar mais para esta casa que hoje, com minha ausência, descortina a solidão que experimentei anos a fio. Este meu sentimento será também seu agora, como sempre foi a solidão que, em bando, você compartilhou com seus amigos; homens que guardam silêncio dentro de casa e continuarão a não enxergar a presença de suas companheiras nelas mesmas, mas nos objetos e na utilidade que elas representam nas vidas inúteis de vocês, tal qual estes itens e cenários e canário que você revela no seu apelo.
No fim das contas, estamos todos sós de um modo ou de outro. Vamos apenas nos acostumando cada um ao seu contexto e ao seu jeito de solidão…
Estou bem, na medida do que é possível estar bem sob a perspectiva de uma separação, igual um quadro que foi esquecido na parede, mesmo sendo de um grande pintor e comprado por alto custo. As lembranças, o tempo, as sensações, os sentimentos sublimados, a paixão definhando, as alegrias que foram se perdendo nos sorrisos amarelados nas fotos, os meninos que foram crescendo sem a sensibilidade para compreender o universo feminino que eu sempre representei nesse sistema familiar… por isso mesmo hoje não sabem nem conversar uns com os outros e destilam dissabor e incompletude nas “bocas raivosas mastigando”, como você mesmo descreveu.
Eu tentei. De verdade, eu tentei! Não deu. Onde falhamos? Não sei! Nem sei ao certo se falhamos ou se esse desfecho é parte da vida de todo casal. Eu apenas tive coragem de partir, de sair, de me abrir, mesmo agora, como um botão de flor em clara potência, antes que caísse no chão de vez, igual o botão dessa sua camisa aí; ou me rasgasse ainda mais, como a meia furada que hoje você calça no seu cotidiano.
Depois dessas violetas mortas virão outras violetas que também morrerão. Não se comova muito com isto. Eu te asseguro que sei reconhecer muito bem esse ritual e esses ciclos da natureza. Nossa vida, no tempo em que a compartilhamos, é um exato reflexo disso.
O canário logo cantará (ou não). Quem sabe as estações desses bichos que, aprisionados, ora cantam, ora não cantam. Eu nunca gostei da ideia de guardar qualquer ser numa gaiola. Sempre quis te falar sobre isto, mas você nunca tinha tempo ou consciência pra ouvir, depois das tantas que bebia com os colegas de esquina ou da ausência velada dia após dia.
Por isto mesmo, tive a coragem de, há um mês, atravessar o corredor escuro da casa, não como uma refém do tempo ou de um crime, mas como uma ave que sentiu a asa um dia coçar e quando foi abrir quase sufocou, porque não havia mais espaço para ela ao roçar as penas encolhidas nas paredes desse cubículo inóspito.
Ah, quanto ao saca-rolha, Senhor, se preocupa não, tá?! Eu trouxe na bolsa, junto àquele batom vermelho do lenço, pra sempre lembrar que minha vida é um milagre e também pra compartilhar um vinho com as amigas e esquecer da nossa fatídica celebração de bodas de prata.
Agora, pelo menos pra mim, já não há mais tempo para aquela saudade que se dilatava e se contraía tantas e tantas vezes em dias, em horas, em minutos, em segundos, em…
Não, a morte não irá nos separar!
Adeus, Senhor!
Viva, tim-tim!!!


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