AMANDA

.   Fonte: Pinterest.

Flertava com a utopia e com o idealismo constantemente. Desde criança era assim, havia sempre algo que parecia muito maior que sua própria vida, que sua relação familiar conturbada, que suas inquietações diversas. 

Amanda era um mundo a ser descoberto, embora ela quisesse descobri-lo antes que o mundo a descobrisse. Pensava sempre que a realidade precisa ser inventada! Que a vida não é para amadores!

Estava sempre a ler e a escrever. Não tinha jeito, as artes (sobretudo as literárias) sempre foram seu principal refúgio na terra árida em que cresceu, como um cacto que quase ninguém se incomodava de regar, ao menos uma vez na semana, a cada 15 dias, assim como é o recomendado pelos que cultivam estes arbustos.

Isolou-se muito nos estudos escolares e nas idas e vindas ao hospital devido aos cuidados com a mãe doente desde seus 12 anos. Não tinha como ser de outra maneira. Era tudo com ela mesmo! Havia de ser forte pelo mundo inteiro (o mundo inteiro que era o seio escasso de sua família). 

Os irmãos tinham suas vidas. Eram mais jovens que Amanda. Ela cuidava deles como podia. Dividia-se entre esta atividade e os estudos (seu maior bem, no sentido literal do termo). O resto era o pai distante (adicto), os conflitos domésticos, a mãe doente, os irmãos um tanto indiferentes. Pelo menos pareciam. Embora efetivamente não fossem. Enfim, não era possível ser indiferente a tudo aquilo!

Inventaram logo o nome Amanda para ela. Fazia jus. Porém às avessas. Era "a digna de ser amada", embora parecesse que essa dignidade estava mais no amor que dispensara aos demais, que no afeto que recebia deles. 

Com o tempo, nossa protagonista foi se deparando com o que a vida tem de melhor e de pior. São muitas coisas... Não me cabe aqui relatar em detalhes. Será motivo para uma nova crônica. 

Se Amanda era feliz? Não! Nunca foi. Confessou-me isso um dia. Mesmo nos momentos em que havia motivação para isto, ela não via sentido na vida. Niilismo, muitas leituras que mostravam a dura verdade da vida, a própria realidade da sua existência pessoal e familiar? Não sei! Até hoje tento decifrar Amanda e não consigo. Nem quero mais. Ela tem o caminho dela e eu (no meu eu lírico) tenho o meu!

Há momentos de contentamento, mas ser feliz nesse mundo adoecido, como é possível?! Desde cedo se deparou com o sofrimento. MARCOU. Marcou, fraturou sua alma em estilhaços de guerra. Até aqui esse texto mais parece um relato para uma sessão psicanalítica. Não, não e! É uma história de vida, compartilhada corajosamente por Amanda entre sonhos e pesadelos. Faz parte de ser gente num mundo belo, porém hostil demais. 

Certa vez, já adulta, Amanda se deparou com outra mulher moribunda, um fóssil vivo (no dizer de um amigo meu); mulher esta que era muito próxima a ela. Passava por uma situação igualzinha àquela pela qual passou a mãe de Amanda. Condições, idade, contexto social, geográfico, familiar, tudo muito semelhante. A mulher morreu quase na mesma idade em que expirou a mãe de Amanda, que se chamava Séfora. O luto foi se somando em sua vida. Freud alerta sempre em seus estudos que se deve ter cuidado para não deixar que o luto se converta em melancolia. Já era tarde. Isso já havia ocorrido com Amanda. 

Essa semana me confidenciou outra coisa: "amiga, não me interessa nada deste mundo, eu quero o céu.". Fiquei pensando como seria o céu no imaginário de Amanda! Haveria uma religião, um encaixe metafísico em suas meditações, um tempo para pensar em Deus ou este já não fazia mais sentido algum para ela? Oras, querer o céu, poderia ser que quisesse Deus também, haja vista essas coisas, dentre as religiões, e o chamado religare, estarem meio que associadas em diferentes culturas.

Não aprofundei o assunto com ela. Apenas a ouvi e tentei fazer uma análise comportamental de sua vida e existência ao longo do tempo. Às vezes o silêncio em ouvir alguém ajuda muito mais que um turbilhão de palavras e acusações inúteis que fraturam muito mais uma Alma e um Ser, já abatidos em suas lutas cotidianas.

Fiquei calada, a olhá-la, escutei atentamente, mas não pude deixar de pensar tantas coisas sobre minha própria vida. Sobre o que eu até poderia contar aqui, para ampliar essa narrativa. Mas não vou contar. Talvez a síntese e a intertextualidade nos ajudem a ser melhor compreendidos pelos leitores. Se é que vocês me entendem.   

Amanda já era uma mulher de 36 anos. Tinha sonhos ainda, havia realizado muitos dos seus ideais, mesmo que o luto e a melancolia estivessem dentre seu principal enredo de vida. Mas estava lá ela na RESISTÊNCIA por uma vida melhor, digna, leve, simples, justa, pacífica, saudável, tranquila. A tranquilidade que durante tanto tempo lhe fora negada deliberadamente. Por quem? Ah, sei lá! Essa é apenas mais uma história de vida. E há tantas e até bem piores que nem me sinto no direito de entrar em certos detalhes já tão conhecidos por muitos e muitas neste planeta. 

Vejam, passamos por uma pandemia absurda e já aí estamos no âmago de uma nova guerra no Oriente. Mais uma quimera inventada pela espécie para passar seu tempo débil e inútil, enquanto um campo minado não chega certeiro na vida individual de cada um desses infames que fazem a guerra. Mas, se avexe não, um dia chega. Ah... se chega!!! É só esperar pra ver a bomba-relógio explodir...

Aguardem!

Enfim, o motivo deste breve texto sem pretensões e um tanto apressado... (são tantas atribuições na vida...!). Voltando... Enfim, o motivo deste breve texto sem pretensões e um tanto apressado é tentar mostrar como cada um tem uma história pra contar, mas nem sempre sabe como fazer isso. Ajudaria sobremaneira relatar suas vivências ou ter alguém que ouça com a capacidade cada vez mais extinta de humanização que consiga elaborar uma narrativa desses eventos que espelham outras realidades de gente, da gente. Faz parte de ser humano digno do termo.

Amanda vai seguindo com parcimônia, temperança, domínio próprio, ressignificando o luto, lidando com a melancolia, acolhendo pessoas que enfrentam as mesmas situações que ela. Voltando-se também a algumas outras ações voluntárias. Isso lhe dá motivos para seguir. 

Mesmo com a realidade desnuda e fraturada, com a qual Amanda teve que conviver, o idealismo e a utopia, motivos trazidos à baila no início desse texto, ainda parecem ser sua principal moeda de troca em um mundo doente e necessitado de um mínimo de sensibilidade, compreensão, criatividade e responsabilidade afetiva uns com os outros.

Nessas práticas, Amanda estava cada vez mais expert, aprimorando-se bastante e até se pode dizer que nisto há honra, há valor, há grandeza, há princípios e busca por restaurar, pelo menos nos demais, a vida que há muito lhe foi subtraída. De modo que, em cada contribuição que ela vinha oferecendo à humanidade – mesmo que com as dificuldades latentes – ela estava também dando nova perspectiva à própria existência. Não fazia sua parte no mundo por alguma motivação de se cultivar, se arvorar, se orgulhar; não; apenas fazia o que tinha que ser feito e pronto. Amanda é um ser notável e eu tive o maior prazer por exercitar esse intercâmbio existencial, linguístico, afetivo com ela.

Quem é efetivamente Amanda? Que coisas são estas que ela faz pela humanidade, apesar de tudo? Qual o motivo desse relato? Conclamo neste momento os caríssimos leitores atentos que tirem suas próprias conclusões quanto a estes aspectos. Há muitas formas de interpretar uma vida humana e eu os deixo à vontade na construção desse sentido e no elaborar dessa compreensão. 

Quanto a mim? Ahh, sou apenas uma mera contadora de histórias (estórias), escritas ou orais, boas ou ruins, reais ou imaginárias.

Na edificação desses sentidos e significados, estou na trilha de uma das coisas que descobri, num insight, que vim gradativamente fazer no mundo, tão somente assim como Amanda! 

(Viviane Marques, 21/XI/23).




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