Betsy está no quarto ao lado
BETSY ESTÁ NO QUARTO AO
LADO
(Viviane
Marques)
Pensou: - por que enxuguei os olhos?! Todo homem chora e morre mesmo. Só tenta fazer os outros crerem que não. Continuou a desafiar sua melancolia recolhida, com incontáveis diálogos internos: num vê Betsy, demonstrou sua vulnerabilidade até os últimos milésimos de segundos e expirou digna, solene, como o vento que agora me toca o rosto desigual, no momento em que sou apenas uma mentira, uma sombra a me deslocar, enquanto Betsy não, ela era mais digna do que eu.
Havia honestidade em Betsy, jamais desmentiu sua condição, até me esperou para olhar em meus olhos antes de morrer.
Enquanto eu, embora vivo aparentemente, estou morto e nem sequer tenho a sinceridade - desse cão inerte agora - de demonstrar e reconhecer minha triste condição desde o início de tudo: encarar o inevitável martírio tão conhecido pelos grandes sábios, sim, esse que nos iguala na mesma condição de impotência e entrega absoluta: o memento mori.
Caminhou ainda por mais alguns quilômetros com aquela caixa debaixo do braço, queria mesmo era levar Betsy à luz do dia, em seus braços, para mostrar a todos o quanto ela fora forte, honrada, lutara até o fim. E também para que todos pudessem perceber o tamanho e a força do seu luto. Ninguém nota mais ninguém nesse mundo, que dirá olhar para um cão morto. Mas, para ele, ela era muito mais que isso. Poxa, conviveram 18 anos, era um Ser digno de ser visto, lembrado, nem que fosse em um cortejo de puro afeto, sua última homenagem. Mas ali haveria uma mensagem da qual toda a humanidade foge léguas: a morte. Nem ele conseguira, como iria impor aos demais tal exposição? Recolheu-se então com a caixa sob o braço e seguiu.
Betsy, a seu modo, havia se preparado para esse cortejo, enquanto aguardava a volta do homem. Se falasse, diria o que desejaria dele depois daquele evento.
O fato de mascarar a própria dor e não permitir que alguém o visse chorando depois da partida de Betsy o enfraquecia, era tão indigno para ela, para ele. Questionou se não era covarde demais e mesmo assim aquele pet o suportou por anos a fio.
Tinha muito amor por ela, cuidou até o fim de suas dores, sem se entregar junto. Porém, no último momento, negou-lhe um direito divino: como poderia esperar friamente a noite inteira, enquanto foi até a cozinha preparar um café? Como tomar café numa hora dessas ou comer qualquer coisa? Depois jogou-a em uma caixa de papelão de um novo liquidificador que comprara na semana anterior. Como pôde enxugar os olhos para que ninguém visse seu pesar? Quanta covardia, pensou mais uma vez. Betsy era muito mais livre, tanto em vida, quanto na morte.
- Eu não sei o que fazer com este corpo! Não conheço cemitérios para pets nesta cidade. Nós nunca nos preparamos para isto. Há muitos lugares destes para as gentes, tipo: as sacadas, os sobrados, os prédios Torre de Babel, as ruas congestionadas, engarrafadas, engavetadas, as prisões, as guerras, os guetos etc., todos esses horrores da vida cotidiana; mas cemitério para Betsy não haveria como encontrar. Quanta injustiça com os animais, os melhores seres desse planeta não têm um lugar para seu último descanso dessa Terra.
Deu meia volta, retornou a casa, adentrou a amargura que lhe percorrera a alma durante aquele trajeto errante e, imóvel, deixou por um tempo a caixa em cima da cama. O que faria? Não se preparou para aquele evento, embora Betsy sinalizasse a todo tempo que aquilo tão logo aconteceria.
O amor e a dor, quando separados, ainda é possível suportar sua carga. Mas juntos, eles terminam se tornando mais pesados que o mundo. Eram esses devaneios que martirizavam o homem o tempo inteiro... muitos pensamentos, lembranças, conexões com o passado em seu inconsciente. Como é difícil processar o luto...
Não suportava mais aquele looping existencial que a morte de Betsy lhe causara. Abriu a caixa, retirou seu corpinho tão digno e, solenemente, decidiu que só se separaria dela em seu próprio último suspiro também.
Como eles moravam em apartamento, levou-a a um taxidermista (coisa mais rara, estranha!) que a empalhou e a produziu com carinho. Em casa, separou um quarto para aquele corpo imortalizado. Era como se olhar para ela, mesmo naquele estado inerte, o fizesse imaginar que nada, nem ninguém, é mortal.
Era escritor. Havia publicado incontáveis obras. Lembrou o velho clichê que todo mundo tem que fazer três coisas pelo menos nessa vida: escrever livros, plantar árvores e ter filhos. Era de fato um clichê aparentemente ridículo, mas ele, solitário que era, havia se apegado a essas ideias. Embora escrever e plantar fizesse parte de sua rotina, definitivamente ter filhos não era comum para ele. Livros? Tinha! Árvores: plantara várias junto com um grupo de ambientalistas. Porém, quando o assunto girava em torno de filhos, aí dava um nó. Não tirava da cabeça a máxima de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”. Então tinha em Betsy a manifestação perfeita para justificar sua visão sobre a miséria humana, tão bem retratada pelo Brás.
Nesse momento seu coração palpitou feio, deu uma fisgada forte, ao reconhecer que não teria filhos porque jamais suportaria a dor de um novo luto, porque eles não podem ser embalsamados naturalmente no mundo contemporâneo.
Betsy era sua única filha, seu único amor, sua última herança, sua derradeira chance, seu principal afeto nessa vida. Betsy agora seria eterna e ele não precisaria jamais lidar com aquela dor, nem com nenhuma outra dor novamente!
Por fim, depois de todos aqueles pensamentos tão fatigantes e congestionados, virou-se pro lado da parede e adormeceu aliviado.



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