"(Doutorado em formigas.)"

Ontem à noite fui tomar um açaí e ficar sentada numa praça aqui pertinho de casa. Vi a lua cheia incrível, um dos principais luminares criados para inebriar os corações humanos. Olhei também para algumas constelações, enquanto o vento tocava suave meu rosto. Deve haver uma intenção em toda a criação. Assim eu posso crer! 

Fiquei olhando os transeuntes, de humanos a animais. Iam e vinham, num movimento que mais parecia uma esteira, uma escada rolante, uma irrealidade, perene, incansável, inquebrável; estava cada qual absorto em suas conversas, contando suas histórias uns pros outros, rindo, talvez chorando por dentro (certamente). Adolescentes brincavam juntos numa quadra de futebol plantada bem no meio da praça. Alguns cães e gatos dormiam, outros ora se lambiam, ora comiam as rações e tomavam a água deixadas pelos anjos que ainda encontram motivos para proteger estes animais abandonados e que vagam pelas ruas. 

E eu lá, talvez um ser meio estranho, sozinha, olhando tudo aquilo, em perfeito estado de suspensão e surpresa com o que, para a maioria, é absolutamente normal. Eu me vi assim, possivelmente eles não. Dizem que ninguém vê mais ninguém nesse mundo, né? Bem, eu vejo e faço questão de ver. É meu instrumento, faz parte do que sempre fui, é meu substrato de elaboração da vida como um todo, meu diário de bordo nessa breve existência.

Ora, aonde eu quero chegar com tamanho arrodeio?! Eu vi uma pequena formiga. É. Eu vi e fiquei a observá-la, fixamente, cada pormenor, cada empenho, cada esforço pela Vida, cada palavra não dita, mas escrita em uma linguagem não verbal, totalmente desconhecida para mim. Enquanto olhava pra ela - tal qual Sísifo carregando a pedra - já ia imaginando o que escreveria sobre aquela investigação de campo. Enfim, não foi um ato de pesquisa. Foi mais espontâneo e mais incrível que isto. As ideias chegam assim brevíssimas, tal qual a velocidade da luz. 

Ela era imensamente pequena. Carregava uma folha dez vezes seu tamanho. Resistente, não parava sua luta por nada nesse mundo, nem pela iminente morte que possivelmente poderia atravessar o seu caminho e desfazer em milésimos de instantes todo aquele projeto ambicioso de levar aquela imensa "Mcfolha" (desculpem a brincadeira!) pra casa. Caía, levantava, e eu, com o açaí nas minhas mãos firmes, potentes, pensava no quanto, para alguns de nós, tudo é tão fácil. E assim, como para ela, no quanto, para muitos de nós, tudo é tão difícil. Difícil de dar dó!!

Há muitos seres humanos nesse momento que estão tentando, que estão resistindo, que estão buscando o básico para sobreviver, mas que também estão na iminência de serem pisoteados por uma minoria, de serem excluídos por projetos espúrios, por ambições em torno do básico que sustentaria toda uma coletividade, como aquela folhinha que, para mim, era tão somente isso, uma folhinha, mas para ela e sua colônia era a manutenção da vida durante um bom tempo. Quanto tempo não sei! Imagino que um tempo suficiente para que depois ela viesse de novo ao mundo dos perigos e tentasse uma outra aventura com o que para nós está tão disponível e acessível e até dispensável. Porém, para elas, é biscoito fino, produto fundamental em sua dispensa de alimentos, em sua cooperativa... em dias quentes, em dias frios, pois há toda uma coletividade que cada uma delas concebe como importante, sagrada, para a qual cada uma se dedica com afinco e destreza, honra e honestidade. 

Aquela formiga, por uns breves instantes, me fez ler incontáveis livros que ainda não li e me ensinou muito, além de ter tornado minha vida um organismo um pouco melhor. Foi inevitável não recordar o verso do imortal Manoel de Barros: "(Eu tenho doutorado em formigas.)". Agora sim, eu tenho! Ahh, a ciência da vida cotidiana, esta sim é a melhor de toda a ciência humana.

vm

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