Espelho d'água
Como são tristes
Os olhos de um poeta...
Se forem morar em mim
Que nem poeta devo ser
Talvez haja apenas
Algumas notas musicais
Obscenas, serenas
Nas entrelinhas do repertório meu
(Ou um silêncio entre parênteses)
Confortável sim, bastante desconfortável!
Ainda assim eu vejo
Com uma sobriedade
Meio entorpecida
E nestes momentos me estranho
Por estar sob esta perspectiva
De ver como são tristes
Os olhos de um poeta
A noite esteve tão fria aqui
Em algum lugar no canto da casa
Eu me encolhi
Não lembro por que fiz isso
Nem sei quando foi que aconteceu!
(Tenho lapsos com a relatividade do tempo!)
Tal qual um animal feroz,
Porém vulnerável,
Por ser a chuva essa coisa
Que me deixa susceptível
À sua vontade indomável,
Fiz de mim um tempo fechado.
Decerto por estar cansada demais
Uma fera combalida
Tento me reerguer por dentro
De uma caverna urbana
Que em outrora me protegia
E agora são muros difíceis demais
Para desconstruir
De mim só me sei quando sou
Aqueles mesmos olhos tristes
Que um dia desses eu vi
Nos olhos de um poeta
Que por aqui passou.
É que os meus também são assim
E as minhas palavras não me bastam
São líricas demais, me enojam
Um doce que passou do ponto
E ontem o cuspi na pia do banheiro
Olho pro espelho
Sob as lentes embaçadas
Os olhos moídos, marejados
Retiro os óculos
Vejo um espectro duplicado
(Esteve aqui?! - pergunto-lhe)
- Claro que não!
Faz parte do seu delírio acreditar em tal coisa.
- Eu sei o que vi
Não tente me iludir
Porque assim como os meus
Pude ver o quanto são tristes os teus...
Os olhos de um poeta!
Os olhos de um poeta
Que por aqui passou.
.
(vm, fluxo de consciência)



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