Vida artificial
Quando a gente se acostuma ao silêncio, andar em shopping é como ouvir uma péssima banda de rock no último volume.
Sem falar naquela artificialidade latente. Nas luzes led que ofuscam a visão (pesquisas recentes inclusive revelam que exposição a longo prazo a elas pode causar cegueira). Os sons misturados em cada loja que se entra disputam qual grito chama mais a atenção dos clientes. As pessoas indo de um lado pro outro segurando as crianças que querem correr pra comer o último combo do McDonald's, do Bob's (como é mesmo o nome do outro?!) ou choram dizendo ter que comprar alguma coisa.
Uns sentam nos sofás sofisticados ou a olhar pros celulares ou ficam olhando uns pros outros, como num zoológico.
A maioria, depois de trocentas horas com a senha do prato na mão, acha na praça da alimentação algumas colheradas de prazer provisório. Depois atravessam as cancelas do estacionamento pra explorar outras cavernas ou pra anestesia de novas atrações dominicais. Nossa! Que mundo é esse que construímos?
(VM, 08/09/2018)



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