Os gatos da UFPB
Escrevi esta crônica um tanto inexpressiva quando ainda fazia o quinto período do curso de jornalismo na UFPB. Porém, como refiz o texto quase que por completo hoje, então resolvi publicar aqui como mais uma digressão cronística, sendo isto para mim um exercício cognitivo relevante e revelador de algumas potencialidades que já acreditava perdidas.
Nesta tarde, veio me arranhar a memória, uma imagem que de súbito me absorveu por completo dos meus mais inúteis afazeres cotidianos. Lembrei que, em um certo dia da semana, enquanto abraçava uma pilha de sete livros, corria para atravessar o quanto antes os portões da universidade e o mais rápido possível seguir aquele caminho linear que me levaria do CCHLA à Biblioteca Central. O prazo que me fora dado para devolver os tais livros estava prestes a terminar e não haveria súplica que rendesse os impacientes funcionários públicos aos apelos do meu atraso. Depois disso, somente as mãos carentes nos bolsos ociosos de uma jovem estudante resolveria a questão. Quem já teve que lidar com aqueles funcionários do balcão de empréstimos de livros daquela biblioteca, sabe muito bem do que estou falando...
Quanto mais avançava, mais parecia difícil chegar àquele lugar. Alguma coisa amortecia meus passos, melindrava a pressa, sei lá... até parecia que estava a andar no sentido contrário de uma escada rolante que subia... Talvez porque toda aquela área exuberante de Mata Atlântica, simples e calma, me ensinasse como seria mais útil e pacífico acautelar minhas ansiedades e sentimentos de desfechos catastróficos acerca daquele compromisso inadiável. Na verdade, era sempre um saco ter que devolver aqueles livros que eu empilhava em minhas estantes como se já fossem meus. E tinha também aquela burocracia analógica e morosa das fichas catalográficas manuais, filas imensas, cálculo de multas, antipatia dos funcionários etc. Além do que, à época, eu nem de longe conseguiria comprar um quinto daquele tesouro que, não posso negar, doía-me ter que devolver. Sim, sei que devemos nos desapegar, pensar na socialização do conhecimento e tal, mas, quando se trata de livros, sou meio avarenta mesmo e confesso meu total egoísmo. Não gosto de emprestar, dar (não os meus!), devolver, só receber mesmo (risos).
Pois é, não sou mesmo a pessoa boazinha ou angelical como alguns já puderam até pensar... (risos). Quanto engano! Só seria anjo se fosse em algum paraíso de Borges, como foi muito bem descrito por ele mesmo. Ademais, tenho imensuráveis defeitos, e este é um deles: o apego a bens simbólicos, culturais, artísticos, imateriais!!! Porém, por outro lado, sempre fui movida por uma ética chata e, por vezes, ultrapassada, marcada por um superego cansativo e obsessivo-compulsivo, traços de minha condição psíquica tumultuada desde a adolescência Então, nada haveria que me pudesse desviar do grande prazer de um dever cumprido! Não fosse uma criatura de unhas afiadas, bigodes finíssimos, pelos desgrenhados, que me lançou, em tom de repreensão, um repentino: MIAUUUU! Vou lhes contar: o susto foi tão grande que, numa só topada, voou livro pra todo lado. Mesmo assustada (certamente ele mais comigo!), ocupei-me em tentar recolher os destroços do desastre, quando aquele pobre gato, lambendo avidamente a ponta de seu rabo tão pequeno, tornou-se-me o único ponto visível. - Será que o machuquei muito? - pensei, enquanto ele projetava um olhar de flecha que me acusava do crime inesperado. Tentei me aproximar, mas todo esforço parecia inválido, pois o bicho era muito arredio. Insisti, hesitei, quando de repente me adiantei ao seu desprezo e o coloquei no colo, numa tentativa de me redimir da dor que lhe causara. A culpa sempre nos torna fracos! Foi um tanto difícil, viu, dadas as características do bicho gato, mas, ao que tudo indica, logo nos tornamos um pouco amigos. Seus olhos, cheios de desapreço e tão profundos e aparentemente distantes, pareceram ensaiar uma trégua, algo assim como numa guerra que, de fato, o que se quer mesmo é achar a paz, embora que por fronteiras tortuosas.
Quando olhei em volta, um turbilhão de outros gatos de todos os tamanhos, cores e gêneros me cercava com um redemoinho de vozes agudas. Eram tantos, Deus meu! Quem já passou por ali sabe muito bem que eles não param de se multiplicar; mas há ainda os casos daqueles que lá são abandonados friamente como em um depósito, quando seus donos se cansam da responsabilidade que assumiram ao adotá-los. Os bichinhos, em sua inocência, confiam nessa parceria, nesse pacto de afeto que fizeram com seus tutores; estes, por sua vez, desprezíveis, cínicos, indiferentes, vão embora sem deixar rastro ou qualquer explicação. Pelo menos pensam que não! Mais cedo ou mais tarde, algo traz de volta certas memórias, como este relato que agora ressoa em meu pensamento. Lembro que fiquei a olhá-los, enquanto sentava-me num canto de parede próximo à passagem de outros estudantes. Já havia me perdido naquele mundo de maciez melindrosa. Alguns tomavam banho com a saliva minguada da língua áspera; outros se procuravam nos círculos de silêncio provisório; os menores tentavam brincadeiras para mostrarem vivacidade, tinham os que se deitavam preguiçosos e indiferentes a qualquer coisa e, precisamente todos, com seus gestos e modos variados, interromperam-me o caminho ou então - acredito mais nesta última hipótese - fizeram-me recordar um sentido oculto esperando apenas um salto para ser achado. Tamanha foi a distração que nem me dei conta do tempo... nem dos livros... que abertos sobre uma calçada inacabada me reclamavam alguns reparos e a multa tão temida no início desse percurso. Então pensei que sempre haverá algo na travessia e toda nossa pressa algum dia se torna tão inútil, como a imagem de um carro prateado que naquele momento cruzou aquele mesmo espaço com os três funcionários públicos que se apressavam em sair da biblioteca pra algum lugar que não saberia muito bem lhes dizer.
(Viviane Marques, 12/06/2020)



Comentários
Postar um comentário