O velhinho do Fusca azul


(vm., em 22\11\17) 

Caminhava, mais uma vez, em uma praça do bairro em que moro para driblar a artilharia impiedosa da depressão que tenho enfrentando já faz um tempo e, de repente, vi aquele velhinho dentro do seu Fusca azul. Parecia incomodado! Estava dentro da velocidade que lhe cabia e ali esperava um pequeno trânsito. Usava um boné cinza e catava alguma coisa dentro do carro.

Quando andou o trânsito, ele teve um ar de riso. ​O velhinho do Fusca azul seguiu adiante, enquanto eu virei-me para continuar a olhá-lo. Passei as demais voltas da caminhada pensando nas voltas que ele daria com o seu transporte. Ele dirigia. Eu caminhava. E quanta gente faz essas mesmas coisas dia e noite, noite e dia. Mas não é pra isso que escrevo. ​Quero falar de uma vida inteira que imaginei ali naquele momento, naquele exato instante em que o vi, lógico que sem dar muitos pormenores ou sem mexer com outros detalhes do meu devaneio. Porque aí já seria história pra outro trajeto.

Acredito que naquele dia ele poderia ter saído para comprar algum doce para o neto, algum ingrediente para o bolo que sua esposa faria. Chegaria em casa, estacionaria o carro e partiria para entregar os agrados ao neto e as compras à sua companheira. Depois sentaria em sua cadeira de balanço e começaria a pensar no quanto era feliz por ter abrigo e uma família acolhedora que o amava. Diferente de tantos velhinhos que estão nos asilos sem sombra de qualquer familiar.  ​

O velhinho do Fusca azul, quando adolescente, pode até ter sonhado com algum carrão, de umas dessas marcas que se multiplicam por aí afora e que muita gente faz questão de trocar a cada três anos, por acreditar que já não serve mais às suas ambições utilitaristas e à sua ideologia do descarte fácil, hábito que se tornou tão comum na atualidade. 

Mas naquele dia, exatamente naquele dia, ele era o dono de um Fusca azul. Como teria vivido em sua infância sem saber do seu Fusca? Entre seus brinquedos devia haver um daqueles carrinhos de madeira, hoje tão fora da moda dos meninos e meninas que só têm tempo pra seus androides e smarts dos modelos os mais infinitos possíveis. ​Eu caminhava, pensava naquele digno senhor e lembrava nostálgica da minha linha do tempo. Dos meus sonhos de menina, a adolescência reclusa, os desejos não realizados, desfeitos por algum ladrão nos bastidores. 

A vida que tenho hoje, um tanto limitada pela batalha com a depressão, mas ladrilhada por resiliência e pelos obstáculos já superados, parece me pedir algo mais, uma descoberta que ainda não consegui, um sentido perdido querendo ser restaurado, uma esperança que se despetalou e deixou de ter aquela aparência de mandala. 

Talvez aquele fosse um dia para parar aquele carro azul, abordar o velhinho e dizer que iria acompanhá-lo até os limites daquele carro de estrutura oscilante, aparentemente caído, mas um bom transporte, que me levaria a algum lugar de repouso, de paz, uma vida movida à velocidade de um Fusca!

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