Um ensaio sobre a Covid-19

Lembro que ao final de 2019 escrevi um texto muito esperançoso sobre o ano de 2020, que enfim vivemos com muitas dificuldades e provações. Cheguei a classificá-lo como 20 + 20 e que poderíamos fazer combinações matemáticas e incontáveis escolhas pra nossas vidas naquele novo ano. Sem qualquer alusão a questões numerológicas, cabalísticas, pensei em cálculos probabilísticos mesmo, aleatórios e inúmeras possibilidades de mudanças assertivas. Bem, pensei e sonhei que fossem pra melhor, né?! Como certamente todos fazem ao final de cada ano, isso é óbvio.

Ledo engano!

Escrevi algumas palavras com um espírito de alegria e até ilustrei a matéria com a imagem registrada por um fotógrafo holandês que havia ganhado um prêmio no ano de 2019 por tamanha beleza registrada em suas lentes. Era a fotografia de um pequeno esquilo sorvendo, com ares de imensa tranquilidade, uma bela flor amarela.

     Esquilo cheirando flor amarela, em imagem capturada pelo fotógrafo holandês, Dick van Duijn

Naquele momento jamais imaginaria o que se avizinhava à história da humanidade. Talvez uma das mais aterradoras condições de estagnação da saúde pública que enfrentamos coletivamente nos últimos tempos. Pelo menos no tempo em que eu habito este planeta!

Hoje vejo que talvez aquela imagem do esquilo cheirando a flor possa até ser tomada como uma metáfora do ano de 2020, tempo em que mal pudemos nos aproximar uns dos outros por meio de um abraço, de um beijo, de um cheiro gostoso no pescoço, no rosto, nas mãos. Talvez seja uma metáfora para o uso inevitável da máscara para proteção coletiva, possivelmente uma metáfora para a perda do olfato e do paladar, uns dos principais sintomas provenientes dessa terrível doença Covid-19… que nos trouxe muito sofrimento, isolamento, luto e dores em todas as partes dessa Terra.

Muitas coisas podem ser tiradas desse evento estranho e inesperado. Poderíamos pensar em tantos enfoques para uma reflexão de fim de ano, um ano adverso, que certamente jamais sairá das nossas memórias. Vejo os sentimentos compartilhados pelos nossos pequeninos, que presenciam as fragilidades humanas já desde tão cedo, precisam olhar para as enfermidades da sociedade, de suas famílias, até as perdas incontáveis e as incertezas, vulnerabilidades e dores enfrentadas por nossos idosos, por todas as nossas famílias da Terra! 

Oh ano ingrato, oh quanto choro e luto! Os que ficam pra ultrapassar esse ano, esse Jordão simbólico, estão de certo modo gratos por terem suas vidas poupadas. Mas não podemos dizer que romperemos esse ano assombroso com a mesma alegria e vitalidade com que ultrapassamos outras viradas. Isso na minha concepção não é possível, não com a cota de quase dois milhões de mortos em poucos meses no mundo inteiro. E nosso país ocupando o ranking de 10% desse total. E lembrando que estes são os números oficiais, hein. Os reais ninguém está tendo acesso ao certo.

Quero encerrar esse ano com uma perspectiva esperançosa, mas não podemos deixar de entrever a realidade dos fatos. Isso seria cegueira e, ao invés de colocar a máscara no rosto, seria colocá-la nos olhos, na própria consciência!

E por falar nisso, desde o início de tudo, uma coisa que não me sai da cabeça é o desejo de escrever breves linhas sobre uma obra de José Saramago, chamada "Ensaio sobre a cegueira", e aproximar essa narrativa do fenômeno vivenciado por todas, por todos nós durante esse ano. Obra atemporal e muitíssimo atual. Várias teses, artigos, reflexões, debates tomaram esse livro como base para uma compreensão profunda acerca do que nos deixa todos em grande perplexidade. 

Adiei ao máximo a escrita de um texto sobre esse evento. Como muitos já desenvolveram reflexões sobre tal livro, para mim pareceu então, como se diz no popular, "chover no molhado". O tempo foi passando, as mortes aumentando, as forças foram faltando, as incertezas e as inúmeras perdas de vidas, degradação social, econômica se avolumando... com isso tudo acontecendo, de repente começou a parecer inútil dizer qualquer coisa sobre o assunto.

Continuo ainda sem forças intelectuais para escrever sobre o livro de Saramago, porque tem me faltado iniciativa pra um bocado de coisas. Espero que isso passe logo, enfim! Deixo aqui também como sugestão o filme com o mesmo nome pra quem se interessar pela narrativa audiovisual. 

O que nos alerta em linhas gerais o mestre Saramago é que somos tal qual "Cegos que vendo não veem". Assim se inicia a narrativa do livro👇

"Um dia normal na cidade. Os carros parados numa esquina esperam o sinal mudar. A luz verde acende-se, mas um dos carros não se move. Em meio às buzinas enfurecidas e à gente que bate nos vidros, percebe-se o movimento da boca do motorista, formando uma palavra, uma, não, duas: “Estou cego."". 

Tal "cegueira branca", como Saramago a classifica, começa a se espalhar pela cidade deixando toda a população acometida e tendo que aprender a viver em estado de quarentena, como bem o sabemos como é.

Embora o enredo leve os personagens aos limites da deterioração moral, afetiva, a uma degradação social, talvez algo semelhante ao que se é vivenciado em tempos de guerra e nos piores campos de concentração nazistas, há algo que nos provoca uma profunda reflexão no sentido de compreender nosso tempo atual. Uma questão que não deixa de me inquietar é saber como sobreviveríamos à nossa própria pandemia sem as muletas das altas tecnologias que nos servem como extensão de nossos corpos. Como ultrapassar a quarentena sem que alguma live idiota ou algumas até proveitosas sustentassem o vazio que nos cerca a todo instante?

No livro, os personagens não têm esse mecanismo e suas pulsões são levadas ao extremo, numa necessidade selvagem de sobreviver, mesmo que para isso fosse necessário ultrapassar determinados limites morais e éticos da convivência coletiva.

Muito se fala que o mundo mudará depois dessa pandemia que estamos a atravessar. Hummm...

Mas em que sentido isso acontecerá? 

Alguns creem em uma nova era de solidariedade e força coletiva, de construção de valores mais éticos e centrados no Outro como força maior das trocas contemporâneas! 

Ora, que coletividade é esta que se ancora no artifício das mídias sociais para se manter suportando a própria existência, o vazio que é estar cada um consigo mesmo? Por que nos lançamos, cegos, nos meios digitais e nos outros seres, muitas vezes sem nem poder conhecer a verdadeira face deste Outro?

E isto nem é metáfora para a máscara social transfigurada em máscara real. É um chamado pra uma reflexão que chega a me incomodar a consciência só em tentar me reconhecer dentro desse "novo normal", expressão que muitos repetem sem pensar no verdadeiro peso de todo esse contexto histórico. Me cansa ler tantas coisas e até mesmo escrever também esse texto sobre isso...

- Estaríamos vivendo um roteiro de um filme de ficção científica?, alguns se perguntam. Bem, não sei! Mesmo que por diversos momentos eu tenha experimentado a sensação de que tudo não passa de um pesadelo, de uma estranha dissociação da realidade, fui me dando conta de que tudo é muito, muito real... Uma realidade sem fuga!

Só pra encerrar esse texto chato e longo com uma perspectiva mais confiante, mais contente, lembrei-me agora de Thomas Edison, que tentou mais de 100 formas de fazer a lâmpada elétrica incandescente, até que conseguiu, por meio de perseverança e muito empenho, engenhosidade e espírito científico, o feito que nos ajuda a não sucumbir atualmente às profundezas trevosas, como os cegos de Saramago. Quando perguntado o que o levou a tanta perseverança, ele respondeu que apenas tinha encontrado 100 maneiras de como não criar a lâmpada elétrica, 100 maneiras que não funcionavam. Incrível, não é?! Percebam que tudo é uma questão de visão e de como o observador compreende os fatos. Não tem como querer que as coisas sejam estanques e todo um cenário social caótico e ainda obscuro pra todos nós tenha fim assim como num piscar de olhos. 

Cada dia enfrentamos obstáculos maiores, novos cenários se criam, a ciência se mantém na linha de frente, embora haja muitos interesses econômicos e políticos (mil vezes putz!!!🙆) envolvidos no meio de todo esse caos e, nos bastidores, como eu sempre digo, os ratos nunca param de roer!

Muitos se ancoram na fé, em explicações esdrúxulas pra muitas coisas, mas não podemos negar que a fé é uma pólvora interessante de sustentação da força coletiva e vem mantendo muita gente de pé em diversos tempos de crise durante todo o percurso da história humana nesse mundo. O problema é que esse artifício também cega e pode ser perigoso e servir para interesses tão nocivos quanto esse vírus que circula entre nós.

Mas, entendam, quando falo em fé não quero nem me referir a algo exterior a nós mesmos, mas em algo que possibilita ao indivíduo se construir enquanto Ser, de dentro pra fora, quando tudo o que se vê são estilhaços de tempos de crises como estes.

Sim, só pra não negar o óbvio, 2021 será um ano de muito desafio, que exigirá mais e mais de nós, tanto individual quanto coletivamente. Repercussões sociais, políticas, econômicas, mudanças na estrutura do sistema de saúde pública, desafios ainda maiores para a ciência, para a educação e tantas outras questões que estão nas entrelinhas de todo o organismo social. 

Mas se tem uma coisa que a humanidade tem provado é que é uma espécie resiliente, resistente, revolucionária e que, por meio do bom uso da razão, vencerá e poderá superar mais essa crise que se instalou em nossos caminhos.

Ainda não vencemos o vírus, ainda não temos qualquer certeza sobre a especulação e as reações da vacina definitiva em nosso corpo. Eu espero sinceramente que estejamos trilhando o caminho certo. E que se não for este, que tão logo possamos achar os trilhos desse túnel estreito em que fomos lançados juntamente, embora separados. Talvez esta tenha sido uma estratégia nefasta do coronavírus para nos desarticular, nos enfraquecer e, pouco a pouco, nos banir de vez da face desse planeta. Mas resistimos e estamos juntos nessa! 

Os que vivem podem celebrar a chegada de mais um ano na linha de frente dessa batalha; os que se foram nos contam a história da maior de nossas certezas, do inadiável, do inevitável, no estilo de um dos mais belos e realistas versos um dia já escritos por Fernando Pessoa: "A única conclusão é morrer."

O que fica de tudo isso é que a união, a perseverança, a responsabilidade social podem muito em seus efeitos, podem nos levar a uma vitória parcial, em meio a tantas outras lutas, apesar de sabermos que o mundo jamais será de fato o mesmo, que as relações humanas sofrerão grandes mutações, mudanças estas talvez já iniciadas até mesmo antes desse momento de pandemia. 

A sociedade como era não existirá jamais, mas esperemos que ela venha a ser um organismo um pouco melhor, muito mais responsável, muito mais consciente de que com a natureza não se pode brincar, que não podemos descartar na Terra nossas mazelas e achar que colheremos bons frutos de tudo isso; esperemos aquilo que vimos no belo filme chamado Na natureza selvagem: "A felicidade só é real quando é compartilhada.". O que está fora disso é ilusão, mentira e falta de sabedoria. Digo isso por experiência própria! Sei como é ultrapassar os limites de um isolamento vivenciado hoje por todos, pois já o enfrento há longos cinco anos. Mas isso é enredo pra outra história de vida e resistência!!!

Desejo um 2021 de reconquista da saúde coletiva, de paz efetiva e de amor e amizades verdadeiras e saudáveis!

Que assim seja!!!

Agradeço a quem conseguiu chegar a ler esse texto enviesado e por algumas vezes até um tanto contraditório. Ah... mas vamos concordar... contradição ainda é e talvez sempre será a nova palavra da cartilha de nossas novas gerações...

Agradeço a todas e a todos que estiveram de um modo ou de outro comigo nesse ano estranho, complexo e inesquecível...

Espero que me desculpem as angústias, as ausências, os altos e baixos e as loucuras compartilhadas. Talvez estas últimas tenham sido as melhores de viver!

Que 2021 seja um ano possível para toda a gente!

E assim será!!!

✨✨✨✨✨✨✨✨✨✨✨✨✨✨✨

(Viviane Marques, em 31/12/2020)

Roteiro escrito e narrado por mim em meu canal no YouTube. Veja no link 👉 https://youtu.be/XD70kVOHCFE

Comentários

  1. Para ajustar melhor a cronologia de publicações no blog, precisei apagar essa postagem anteriormente e republicá-la novamente aqui. Com isso, o comentário que alguém fez na postagem anterior também foi deletado. Em todo caso, copiei e colei aqui o comentário e minha resposta 👇👍

    Unknown 3 de janeiro de 2021 12:32
    Certamente 2021 estará muito cansado no final do ano, pois tera que trabalhar em dobro para devolver sorrisos perdidos e sonhos estacionados. 🌻

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    Viviane Marques Guedes 4 de janeiro de 2021 09:56
    Sim, tens razão! Grata pelo comentário. Vamos em frente! Abraços 🌼🌺🌹🌻

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