Ensaio onírico


O cão correu mais rápido para avisar ao socorrista que o cavalo havia sido sequestrado. Sobre a calçada - por vezes tocava as sarjetas e toda a sujeira acumulada dos dias - o cão corria ao lado da viatura. Uma moça, também preocupada com o cavalo, pediu ao socorrista para deixá-la acompanhar a diligência. Seguiram os três - moça, cão, socorrista - naquele comboio de expectativas. Quando o socorrista deixou o último paciente no hospital, tentou uma paquera com a moça que, por sua vez, preocupava-se mais com o cavalo que com aventuras românticas. Atrevido, o socorrista roubou-lhe um beijo e prometera achar o quanto antes o cavalo. O cão não parava de correr ao lado da viatura. Coitado! Também tinha lá seus motivos para querer achar aquele cavalo. A moça por instantes esquecera o propósito de ter entrado na viatura e ficou a fantasiar como seria a vida ao lado daquele socorrista tão prestativo, forte, belo, lábios grossos... De repente, alguém toca o braço da moça e a adverte que era hora de descer do veículo. Havia chegado ao ponto final do ônibus. Sobressaltada, olhou pela janela e não viu o cão; examinou o assento ao lado, estava vazio. Ajeitou os livros nos braços, pendurou a bolsa no ombro e desceu do ônibus com o coração a galopes e o peito latindo uma saudade sem cura.

(Viviane Marques, 20/11/2016)

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