Declividade
Estou na soleira da tarde
Este pórtico semiaberto
De onde pressinto uma entrada
Um breve silêncio, um cansaço
No mundo inteiro...
Uma centelha que resfriou
Mas ainda invade e chama
E arde profundíssima
Já é tarde
Nas trevas que fizeram essa hora
Em que tudo se desfaz
Em que tudo verte de dentro para fora
E se esvai e decai!
Declina como um monte extremo
Verticalmente longínquo
Cingindo o próprio barro
Argamassa de humor aquoso
Pastoso como a solidão desta hora
Perdido na causalidade de tudo.
Não preciso de ti!
Tarde insana, arrefece minhas narinas
Com um beijo inorgânico
Com odor de ferro e amônia
Que nada possa dizer em teu solo
A alma desalmada, desfolhada
Das coisas que realmente importam...
A existência, ser o que não se é
E, sendo assim, não ser o que se é...
O que nos pertence como herdeiros
Do infinito, do Universo, dos seres,
Das coisas, de tudo, de nada?
Somos tutores de nós mesmos?
(vm, em 03\04\2020)



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