Cães de rua

Esta tarde passei perto de um deles. Estava lá, quase sem fôlego, com a língua pra fora, pedindo uma bacia d'água a quem quer que fosse. Fora este, havia mais alguns que chegaram pra beber da água e comer da ração que uma senhora, carregando dois vira-latas pela corrente, resolveu colocar pra eles.

Chegaram perto de mim para farejar os pães que eu conduzia numa sacola. Logo os mandei pra longe, como Rubião fazia com Quincas Borba quando este estava muito arredio.

Fiquei ainda a olhá-los, na sua liberdade de correr pelas ruas, como que procurando algo, com um vagar delirante de alguém que não tem consciência de si.

Saíram em bando, ora juntos, ora afastados, farejando os lixos, as saias das mulheres, numa rinha uns com os outros pelos melhores pedaços de lixo. Uma desordem só.

Outro dia vi um desses na minha rua, arquejava, me olhava com aquele sentimento de dor. Com aquele ar de desdém por tudo que não fosse diminuir aquele sofrimento. Eu quis até fazer algo por ele, mas minhas ocupações...

No dia seguinte estava só o corpo, a alma já havia achado algum trem de partida, pra onde nem me pergunte.

Fiquei com uma dívida com aquele bichinho. Se o tivesse recolhido, mesmo aos trapos, poderia ter livrado minha consciência do peso que hoje sinto. A culpa sempre nos faz fracos.

(VM, 30/03/2017)

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