Aquarela

 


É pouco, é sempre pouco

não há papel naquilo que não digo,

nem há palavras, nem tinta

entre o dizer e o silêncio, um espaço rouco

em que a voz se perde, amortece

nas entrelinhas ou dá de cara com o branco

é pouco, é sempre pouco

e bem que poderia ser tinta

um pincel biruta, um vento louco

um traço invisível falando de cor

dois pontos apenas e a vida começaria a ser

mas é pouco, é sempre pouco

e não digo que um dia seria muito

há sempre uma dualidade no mundo:

da esfera ao centro o diagrama é oco

entre a semente e a flor, a verdade se esconde

e ainda é pouco, é sempre pouco

um conceito não é a coisa em si

o objeto é o potencial do sujeito

mas o mundo tal como o concebemos

é muito mais simulação, é muito mais obscuridade

os caminhos que não se percorreram

porque estavam ocultos,

o tempo que não se consumiu

porque agora era ainda há pouco

as pernas em linhas tíbias

a frequência perdida nos braços estendidos

a brancura do papel

a tinta que secou

antes que o desenho virasse conceito

e o sujeito pudesse saber

que era pouco, era muito pouco

na dor há um abrigo

a inércia é também caminho

agora sei que é pouco

o não percorrido, o que não foi tampouco

onde a asa é menor, menos larga

porque o mundo é muito, e o corpo é pouco

muito pouco.

(V., 28/09/2014)

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